Cenário Macroeconômico outubro/ novembro 2017: paralisia do ajuste fiscal ainda se contrapõe à reversão cíclica da economia

A economia brasileira se recupera da maior recessão de sua história contrapondo um cenário de inflação baixa, juros em queda e contas externas benignas a resultados fiscais ainda temerosos, na ausência de reformas. No front otimista, temos os indicadores de atividade reiterando um ambiente de reversão cíclica no curto prazo, com o crescimento se solidificando e contaminando mais setores. Já do front pessimista vemos as contas do governo ainda alimentando as desconfianças da solidez da retomada econômica em meio ao caos da crise política.

Os resultados recentes para a produção industrial, varejo e serviços reforçam as projeções de crescimento para o PIB no último trimestre do ano, com o consumo das famílias liderando a retomada econômica. Isso decorre da redução do nível de desemprego, concomitantemente ao alívio no nível de endividamento e aumento do poder de compra em decorrência da deflação de itens ligados à alimentação domiciliar. A melhora no balanço das famílias deve ser intensificada pela redução do custo do crédito às pessoas físicas, em função da queda da taxa básica de juros.

No que diz respeito aos investimentos, as perspectivas são mais insólitas, com alguns números positivos para a produção e importação de bens de capital, a despeito do peso do crédito para pessoa jurídica continuar em patamares deprimidos. Não obstante, o fraco desempenho da construção civil tem impedido uma recuperação da formação bruta de capital mais robusta. Além disso, as incertezas quanto à disputa eleitoral de 2018 deverão limitar o ímpeto dos empresários para investir.

As perspectivas animadoras tanto do lado da demanda quanto do lado da oferta (mesmo que de forma modesta) são favorecidas pelo ambiente externo atipicamente brando para os países emergentes e pela trajetória bem-comportada do câmbio, influenciada pela redução dos prêmios de risco-país. O crescimento mundial está mais forte e sincronizado, com baixíssimas pressões inflacionárias, o que aponta para um cenário de liquidez externa ainda farta. Ou seja, o Brasil defronta-se com uma excepcional janela de oportunidade para resolver os seus desafios fiscais.

Isso posto, observa-se que o governo tem se esforçado para segurar o gasto público, em especial reduzindo investimentos, mas suas despesas continuam crescendo de forma desenfreada, lideradas pelo aumento dos gastos sociais. Sem a almejada reforma da previdência e mudanças na regra de correção do salário mínimo fica cada vez mais difícil imaginar uma mudança de rumo. Portanto, a questão que ganha peso crescente é se a atual reversão cíclica da economia doméstica, conjugada com um cenário global aderente, não pode postergar a ação política em prol de soluções pragmáticas aos problemas fiscais estruturais. Isso em meio às incertezas da corrida eleitoral de 2018, que também deve atrasar e dificultar a aprovação oportuna das reformas. Dessa forma, vivemos atualmente um cenário adverso no qual o curto prazo mostra-se mais favorável e benigno, mas as incertezas de longo prazo permanecem as mesmas.

Atividade

Mantemos nossa previsão de crescimento do PIB em 0,7% em 2017 e de 2,8%, em 2018 com destaque para o desempenho do consumo. Nossa projeção se sustenta no recuo das taxas de juros sobre operações de crédito para pessoa física, derivado do atual ciclo de afrouxamento monetário, contribua para reduzir o comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida, o que poderá sustentar a retomada do consumo também em 2018.

Mercado de Trabalho

Os indicadores nos permitem afirmar que o Brasil está passando por um período de recuperação não apenas do emprego, mas também da renda dos trabalhadores. A taxa de desemprego medida pela PNADC caiu pelo quinto mês consecutivo em 2017, enquanto segundo o CAGED houve expansão no salário médio do mercado formal.

Inflação

O nível de preços ao consumidor continua em queda, apesar de os preços ao produtor já sinalizarem uma aceleração da taxa inflacionária, o que ainda é pouco evidente no IPCA.

Política Fiscal

A tentativa do governo federal de frear a acelerada expansão da dívida pública mediante a devolução antecipada dos créditos mantidos junto ao BNDES, em conjunto com a melhora da economia, o volume das receitas não recorrentes e a redução dos juros servirá para garantir estabilidade até 2018 do nível da dívida bruta, que deve se manter próxima de 74% do PIB.

Comércio Exterior

Depois de quatro anos de queda, o índice de comércio exterior brasileiro voltou a crescer. Segundo a Cepal, em 2017 o Brasil apresentou uma taxa de exportações de 18% sobre todos os produtos ante -3% no ano passado. O país ocupa a 5ª posição no ranking de maiores exportadores da região, atrás de Honduras, Nicarágua, Uruguai e Suriname. No setor de mineração e petróleo, o crescimento chegou a 49%, e nas exportações manufatureiras, 20%. Os principais destinos foram China, Estados Unidos e os países latinos.

Economia Internacional

Estimamos que a taxa neutra de juros americana esteja em -0,5%. Ou seja, com a política monetária praticada hoje (uma taxa básica de juros real casa de -1%, produzida por uma Fed Funds de 0,75% e uma expectativa de inflação de 1,7% para o último trimestre de 2017), estamos a duas subidas de 0,25pp para que o juro praticado seja neutro. Se nada de novo acontecer com a inflação nos EUA, nossa aposta é que haverá só mais duas subidas dos Fed Funds à frente, de 0,25pp cada, em dezembro e em meados de 2018, e depois o Fed ficará à espera da inflação, praticando juro neutro.

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