Cenário Macroeconômico JUNHO/2017: incertezas geradas pela dobradinha crise política e corrupção fortalecem barreira para a recuperação econômica

Após a divulgação da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, dono da JBS, em delação premiada, assistimos estarrecidos a mais uma hecatombe no cenário político nacional, com potenciais reflexos devastadores na economia. O áudio indica que Temer ouviu, sem fazer objeção e nem depois reportar aos órgãos competentes, os detalhes sobre mecanismos usados pelo empresário para obstruir a Justiça, como a cooptação de juízes e procuradores. Temer também escutou, sem repreender o interlocutor, declaração sobre possíveis pagamentos ilegais ao ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB). Isso bastou para causar uma grave mudança no ambiente político, sobrepondo um altivo grau de incerteza às perspectivas econômicas, com impactos ainda fortuitos sobre o preço dos ativos e o nível de atividade. Tal mudança certamente afetará o encaminhamento das reformas relacionadas ao ajuste fiscal e a esperada lenta e gradual retomada da atividade. Mas o que esperar após o arrefecimento dessa fase de turbulência? Difícil afirmar assertivamente, mas é provável que voltem então a prevalecer os fundamentos da economia e as tendências que se delineavam antes desse choque político.

Até a primeira quinzena de maio os sinais de recuperação da economia brasileira vinham se tornando cada vez mais factíveis, alimentando a expectativa de que sairíamos da recessão ainda este ano, possivelmente no segundo semestre. Até então, alguns indicadores e análises apontavam para terreno benigno — o que justificava dose moderada de otimismo no marco político pré-17 de maio. Mesmo no mercado de trabalho, onde o corte de vagas de emprego impacta socialmente e psicologicamente com elevados níveis de crueldade sobre as famílias, identificávamos uma melhora. Adicionalmente, a desinflação se mantinha em curso, os juros reais futuros projetando queda e o setor externo dando sinais positivos.

Contudo, apesar de começarmos a ter alguns pontos de luz no fim do túnel eles ainda vinha carregados de incerteza e, talvez, descontinuidade. A bomba JBS que caiu sobre o Planalto intensificou a grandeza da crise política sobre a economia, aumentando as dúvidas de como encontraremos uma saída sustentável para sairmos do imbróglio fiscal. Mas a incerteza sobre a retomada da atividade fica mais aguda quando colocamos em dúvida sobre quem fornecerá combustível para o motor do crescimento quando se esgotar o “bônus agropecuário”, que alimentou e vem alimentando, pelo lado da oferta, a expansão macroeconômica do primeiro trimestre. Pelo lado da demanda agregada, por outro lado, não há dúvidas sobre uma contribuição significativa das exportações líquidas nos trimestres à frente. Mas isso não impedirá redução do nível de atividade no segundo trimestre em curso, após expansão no primeiro deste ano.

De qualquer forma, o impacto efetivo do choque político na economia é algo difícil de antecipar. Ele dependerá da velocidade com que se encontre uma solução política para a crise, de como vai se comportar o cenário externo e da capacidade de a equipe econômica manter a confiança dos investidores.

Política

A possibilidade de novo impeachment, desta vez contra Michel Temer, é cada vez maior. Ninguém está alheio, começando pelos mercados, à gravidade do momento e suas consequências letais sobre o futuro do Brasil, especialmente quando começavam a aparecer os primeiros, mas sólidos, indícios de recuperação econômica, lembrando que Temer nunca contou com legitimidade suficiente para governar confortavelmente. Isso torna muito mais vulnerável um governo nascido débil. Sobre o futuro, questionamos, em caso de eleição indireta, qual seria a legitimidade de um novo mandatário eleito por parlamentares suspeitos de corrupção. Apesar de no cenário atual, não haver perspectivas de governabilidade para o presidente Michel Temer, sua renúncia como solução para estancar a crise é algo improvável. Assim, acreditamos que a decisão sobre o futuro de Temer dependerá de decisão do STF. A questão é saber quanto tempo isso vai levar. Nesse caso, o STF tem dois caminhos a seguir. O primeiro é referendar a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, caso a Corte decida pela cassação da chapa de Dilma Rousseff e Temer. O outro caminho, seria Temer virar réu perante o STF (por enquanto, há uma investigação aberta contra ele) e ser afastado de imediato. As reformas política, tributária e previdenciária são necessárias, mas o debate não pode prosseguir da forma como se dá hoje, sem representatividade. Em outras palavras, a seara política está muito nebulosa e previsões sobre o futuro do governo Temer são difíceis de serem feitas. Além disso, consideramos improvável a convocação de eleições diretas já, como defendem alguns setores, em razão dos prazos.

Nível de Confiança

Antes mesmo da delação da JBS, os indicadores de confiança da FGV já indicavam avanço da incerteza, sugerindo que empresas e consumidores iniciaram o segundo trimestre sinalizando arrefecimento do ritmo de recuperação econômica. Em particular, a confiança empresarial manteve em abril a tendência de alta iniciada em janeiro, mas a dos consumidores diminuiu ligeiramente. Entre os empresários, a boa notícia é que as expectativas em relação a variáveis que sinalizam continuidade da tendência de recuperação mantiveram-se em alta, a despeito da elevada incerteza. Entre os consumidores, os indicadores sugerem contínua preocupação com a demora na recuperação e, possivelmente, com o grau persistentemente elevado de incerteza política. A crise detonada pela delação dos irmãos Batista não vai contribuir para aliviar esse quadro. Além disso, as famílias estão atualmente mais endividadas do que em outras saídas de recessão. Isso, combinado com elevado comprometimento da renda e o desemprego recorde, não indica que seja possível uma aceleração de vendas a prazo. Curiosamente, a despeito dessas dificuldades, os segmentos de revendedores e produtores de bens duráveis estão cada vez mais otimistas com as perspectivas de vendas.

 PIB

Nossa estimativa para o crescimento do PIB no segundo trimestre é de nova queda de 0,4% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, apesar do bom desempenho esperado para a agropecuária. A recuperação mais lenta da indústria de transformação, em particular, sugere cautela quanto ao cenário prospectivo para o nível de atividade. Nesse meio tempo, mantivemos nossa projeção de crescimento levemente positivo para o PIB este ano: 0,3%. Naturalmente, cabe esperar o desenrolar da crise política para avaliar se, e em que grau, essa previsão precisará ser revista.

Mercado de Trabalho

O mercado de trabalho é outra área em que oscilações de desempenho são indicativas de incerteza. Na nossa avaliação, o agravamento da crise política no País pode reverter a perspectiva de recuperação do mercado de trabalho que, até as primeiras duas semanas de maio, estava prevista para acontecer no segundo semestre deste ano. No trimestre encerrado em abril, a taxa de desemprego correspondia a 13,6% (14 milhões de pessoas), uma alta de 1 ponto percentual quando comparada ao trimestre finalizado em janeiro (12,6%), segundo dados da Pnad Contínua do IBGE. Até então, nossa expectativa era de que a desocupação crescesse até o mês de setembro, alcançando 15 milhões de pessoas e começasse a cair depois deste período. Porém, com as incertezas geradas pela divulgação da delação de um dos sócios da JBS, colocando em xeque o mandato do presidente Michel Temer, há a possibilidade que o número de desempregados possa continuar avançando após setembro, chegando a 16 milhões de pessoas. Além disso, o adiamento da aprovação das reformas estruturais pode acabar atrasando o processo de retomada do emprego.

Inflação

Apesar do aprofundamento da crise política, acreditamos que a convergência dos preços dos serviços livres para a meta de inflação ocorrerá ainda este ano. Após identificar que a tendência de desaceleração desses preços entre agosto de 2016 e fevereiro deste ano foi interrompida em março e abril últimos, essa quebra do movimento de arrefecimento dos preços não deve ser interpretada como um possível esfriamento do processo de desinflação dos serviços livres. A análise da inflação subjacente dos serviços excluindo grupos de preços que dificultam a identificação da tendência inflacionária permite dizer que há espaço para o movimento desses preços convergir para uma taxa que, ainda que não idêntica, é muito próxima da meta de inflação no final de 2017.

Política Monetária

Os membros do Copom do Banco Central decidiram em 31 de maio último, por unanimidade, reduzir a Selic em 100 basis points, de 11,25% para 10,25% ao ano. O corte foi o sexto consecutivo. Comunicado do BC divulgado após a decisão, porém, indica que o ritmo de corte do juro será reduzido já na próxima reunião. “Em função do cenário básico e do atual balanço de riscos, o Copom entende que uma redução moderada do ritmo de flexibilização monetária em relação ao ritmo adotado hoje deve se mostrar adequada em sua próxima reunião”, cita o documento divulgado pela autoridade monetária. A redução de 1 ponto porcentual era largamente esperada pelos economistas do mercado financeiro, mas havia a percepção de que um corte de 1,25 ponto porcentual seria possível, mas não provável. Isso porque a crise política surgida após as delações de executivos da JBS elevou o risco para os próximos meses. Foi justamente o aumento das incertezas, que colocam em risco as reformas trabalhista e previdenciária, o principal motivo citado pelo Copom. Assim, esperamos que o Banco Central colocará o pé no freio e diminuirá a velocidade do ciclo de flexibilização da política monetária. Ainda não temos, contudo, uma noção mais apurada da força que usará para desacelerar.

Setor Externo

É dessa área que temos ouvido boas notícias. No mês de abril foram registrados o maior superávit na série histórica para o mês (US$ 7 bilhões), o maior superávit no ano até abril (US$ 21 bilhões) e o maior superávit acumulado em 12 meses (US$ 56 bilhões). O desempenho da balança resultou principalmente de uma expansão em valor das exportações bem superior à das importações no primeiro quadrimestre de cada ano: 22% contra 10%. Por trás dessa diferença estão os ganhos dos preços de exportação, que provocaram sensível melhora nos termos de troca. Esses resultados, junto com a redução do risco Brasil até meados de maio, foram a causa principal da interrupção do processo de desvalorização cambial de até bem pouco tempo atrás e da valorização da taxa real efetiva de câmbio. Naturalmente, o choque político alterou esse quadro, com altas do risco país e do dólar, mas ainda não é claro o tamanho e a permanência que essa alta terá.

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