Conjuntura Econômica dezembro 16/janeiro 17

Conjuntura Econômica dezembro de 2016 /janeiro de 2017

 Panorama Geral: a recessão que o país vive é mais longa e profunda que as anteriores, o que dificulta prever como e quando se dará a retomada. Os últimos indicadores apontam que a queda da atividade econômica se manteve no terceiro trimestre de 2016, mais intensa comparativamente ao resultado no segundo trimestre do ano, cujo resultado veio na contramão das expectativas do mercado. Os investimentos, que haviam apresentado comportamento positivo no segundo trimestre, voltaram a mostrar queda significativa no terceiro trimestre. A recuperação econômica somente ocorrerá por meio da melhora das expectativas dos agentes e da combinação de políticas econômicas. Observa-se que a condução da política monetária já permitiu uma rápida redução das expectativas de inflação, que se aproximaram da meta em 2017 e se igualaram à meta para os anos seguintes. O desafio mais crítico, entretanto, diz respeito ao arcabouço constitucional que dê suporte crível a um novo regime fiscal. Será necessário ainda enfrentar outras questões estruturais que pesam sobre o desenvolvimento econômico brasileiro: melhorar o ambiente de negócios (questão regulatória); reformar a estrutura tributária (complexa e cria distorções); alterar a legislação trabalhista (rígida) e aumentar grau de exposição da economia ao comércio internacional.

Atividade Econômica: embora o cenário recessivo tenha arrefecido marginalmente nos seis primeiros meses de 2016, o comportamento mais recente dos indicadores de atividade econômica mostra um ambiente econômico marcado pela instabilidade. Apesar de as atividades industriais voltadas para o comércio exterior terem apresentado resultados mais animadores no primeiro semestre do ano de 2016, a trajetória da produção industrial nos últimos meses se deteriorou, revertendo grande parte do ganho acumulado. Na nossa avaliação, a performance da produção industrial deverá apresentar instabilidade nos próximos meses.

Inflação: após o IPCA iniciar o ano de 2016 próximo a 11% de taxa acumulada em 12 meses, a inflação tem sinalizado movimento de descompressão desde meados do terceiro trimestre do ano passado. O movimento decorre basicamente da reversão da forte tendência de alta dos preços dos alimentos, a partir de setembro de 2016, quando o indicador iniciou uma trajetória descendente mais significativa, levando a taxa acumulada em 12 meses para 7% em novembro. Para 2017 a expectativa é de continuada desaceleração da inflação, gerando uma convergência mais rápida para algum valor próximo da meta de 4,5% – o que seria possibilitado por uma queda mais expressiva dos preços livres, em especial dos alimentos e dos serviços. No caso dos alimentos, as boas projeções de safra tanto no país quanto no resto do mundo e a baixa probabilidade da ocorrência de fenômenos climáticos, que poderiam prejudicar a produção agrícola, devem manter comportados os preços das commodities agrícolas, dando continuidade à trajetória de queda de preços já em curso desde o último trimestre de 2016. Em relação aos demais preços livres, o que deverá puxar a desaceleração inflacionária é a lenta retomada para a atividade econômica e seus efeitos sobre o mercado de trabalho. Adicionalmente, a baixa confiança dos consumidores, aliada ao forte endividamento das famílias e ao menor reajuste do salário mínimo, deve manter a demanda doméstica contraída, facilitando o recuo da inflação dos bens e serviços livres mesmo em um ambiente de redução das taxas de juros. Por fim, a recuperação da confiança na atuação do Banco Central, no que tange ao cumprimento da meta de inflação, vem desencadeando um movimento de ancoragem das expectativas e ajudando o processo de queda da inflação. Os riscos para a consolidação desse quadro são baixos, porém existentes, e estão, basicamente, conectados ao mercado externo. Pode ocorrer alguma desvalorização cambial decorrente de medidas adotadas pelo novo governo norte-americano, com impacto nos preços comercializáveis. Além disso, o recente acordo entre os produtores de petróleo pode gerar uma alta nos preços domésticos dos combustíveis, cuja regra de reajuste passou a refletir as cotações internacionais.

Mercado de Trabalho: permanece sua trajetória de deterioração no quarto trimestre de 2016, que se arrastará no primeiro trimestre de 2017. A taxa de desemprego alcançou 11,9% em outubro, devendo ficar próxima de 13% ao final do primeiro semestre de 2017. Até meados de 2016, o aumento do desemprego, apesar de ter sido substancial, foi atenuado pelo fato de que muitas pessoas que perderam emprego terem se tornado trabalhadores por conta-própria. Observa-se, contudo, que essa tendência se reverteu no terceiro trimestre de 2016, quando se observou uma queda dos ocupados por conta-própria. Tal movimento foi acompanhado de uma queda na taxa de atividade, reforçando que, desde o último trimestre de 2015, o aumento do desemprego foi causado majoritariamente pela queda da população ocupada (PO), tendo sido reduzida a contribuição do aumento da população economicamente ativa (PEA).

Setor Externo: Os dados mais recentes do déficit em transações correntes sugerem um estancamento do movimento de ajuste das contas externas, o que não surpreende, tendo em vista que, em pouco mais de um ano, o déficit teve redução de mais de US$ 70 bilhões, ou 4% do Produto Interno Bruto (PIB). Acreditamos que o déficit caminha para fechar o ano em cerca de 1% do PIB, abaixo da média histórica de 1,8% do PIB. Novas reduções do déficit, ou mesmo o alcance de um resultado superavitário nas transações correntes, dependeriam de um desempenho das exportações mais dinâmico do que o verificado até o momento. Paralelamente, encontra-se certa recuperação das entradas de capital no país, principalmente em função do crescimento dos investimentos estrangeiros diretos (IED), garantindo um quadro confortável para o financiamento do déficit em transações correntes.

Crédito: o comportamento do mercado tem sido condizente com o do nível de atividade da economia, registrando contração continuada. O crédito, porém, teve a particularidade de, durante o período de expansão anterior à recessão, ter crescido mais que o PIB. Se por um lado esse crescimento em ritmo superior ao do PIB era possível e até desejável pelo nível inicial baixo do saldo total de crédito como proporção do PIB, aparentemente o crescimento foi excessivamente rápido. As famílias, agora com altos encargos financeiros decorrentes do endividamento acumulado, têm pouco espaço para tomar novas dívidas. Além disso, a deterioração do mercado de trabalho reduz o potencial da demanda por crédito. No caso das empresas, pesa sobre a demanda por crédito a retração nos investimentos, para a qual contribuem os altos índices de ociosidade da produção. Pelo lado da oferta, o cenário de incerteza faz as instituições financeiras ficarem mais cautelosas na concessão de empréstimos. Um aspecto positivo que surge dos dados recentes é que a inadimplência de pessoas físicas não tem crescido e o nível registrado em outubro último, de 4,2%, é o mesmo de um ano antes. A das pessoas jurídicas, entretanto, tem aumentado, saindo de 1,9% em dezembro de 2014 para 3,6% em outubro de 2016.

Setor Público: as contas públicas brasileiras conservam quadro crítico que reflete o panorama recessivo da atividade econômica nacional. Os indicadores fiscais ilustram situação ainda difícil, ao final de outubro, embora a repatriação de recursos de residentes no exterior tenha gerado receita adicional ao governo. Mesmo assim, desempenho fiscal permanece afetado pela queda generalizada na arrecadação e pelo incremento dos gastos previdenciários. O resultado primário acumulado até outubro totalizou déficit de R$ 45,9 bilhões, e, no acumulado em 12 meses, registrou-se saldo primário negativo de R$137,2 bilhões (2,33% do Produto Interno Bruto – PIB). Entretanto, entende-se que há pontos positivos a serem levados em conta. A aprovação da proposta de emenda constitucional (PEC) que institui um teto para os gastos públicos ocorreu sem muito desgaste em dois turnos na Câmara e no Senado Federal. Com a promulgação, efetivada em 15 de dezembro, foi concluída a primeira reforma efetiva e necessária ao controle dos gastos públicos. A segunda medida, não menos importante, foi protocolada pelo governo no último dia cinco de dezembro e diz respeito à reforma da Previdência. Ainda não é possível prever quais mudanças serão efetivamente aprovadas pelo Congresso, mas seus efeitos configuram pauta crucial para o governo, que espera aprová-la no primeiro semestre de 2017.

Economia Internacional: na Área do Euro, o quarto trimestre de 2016 caracterizou-se pela reversão das expectativas mais negativas que prevaleciam ao final de junho, sem que se tenha conseguido, porém, superar as incertezas de caráter mais estrutural. O susto do Brexit e os efeitos negativos dessa decisão têm-se revelado, até o momento, menores do que o esperado. A libra desvalorizou-se 13% logo após o anúncio do resultado do plebiscito, estabilizando-se posteriormente nesse novo patamar, enquanto os dados de atividade também apresentaram recuperação após queda em junho e julho. Na Área do Euro, a tendência de crescimento moderado não parece ter se alterado. O crescimento moderado do Área do Euro foi influenciado positivamente pelas exportações, algo que deve ser difícil de sustentar diante do modesto crescimento em volume no comércio internacional.

Nos EUA, depois de uma reunião de dois dias, o Comitê de Política Monetária do Fed (FOMC) anunciou um aumento de 0,25 da taxa, agora entre 0,50% e 0,75%, o que aumenta o risco de uma alta do custo do crédito nos Estados Unidos. Foi a primeira reunião desde a vitória de Trump, em 8 de novembro. Há exatamente um ano, o Fed fez seu primeiro aumento em quase uma década e pôs fim à sua política de taxas nulas aplicada desde 2008 para apoiar a recuperação econômica, após a Grande Recessão de 2008-09, e dar fluidez ao crédito. Desde dezembro passado, a entidade se recusou a subir novamente as taxas, alegando riscos como o frágil crescimento mundial, os potenciais problemas da ruptura britânica com a UE (Brexit), ou a iminência da eleição presidencial americana. Como esperavam os mercados, o FOMC parece agora seguro de contar com “provas extras” sobre a melhora da economia dos Estados Unidos – um dado que o Fed considerava necessário para passar à ação. O desemprego continua caindo e chegou a 4,6% em outubro, sua menor taxa em nove anos, o que coloca os Estados Unidos perto do pleno emprego – um dos objetivos centrais do Fed. A inflação anual continua avançando progressivamente para a meta de 2% fixada pelo Fed, que espera uma taxa de 1,9% para o ano. Como dado adicional a esse panorama otimista, o Fed revisou para cima as previsões de crescimento da maior economia do mundo, especialmente para 2017, quando espera que cresça 2,1% contra os 2% esperados há três meses. O Fed admite, porém, algumas fraquezas. Uma delas é que os investimentos das empresas continuem sendo “frágeis. De qualquer modo, advertiu que o consumo, principal motor do PIB americano, está em “alta”. Depois dessa alta dos juros, será preciso esperar a reação dos mercados, mas especialmente a de Trump. Durante a campanha à Casa Branca, o magnata acusou o Fed e, em especial sua presidente, Janet Yellen, de manter artificialmente baixas as taxas para favorecer o governo Barack Obama e a candidata democrata na corrida pela Casa Branca, Hillary Clinton. Trump já prometeu baixar os impostos das empresas e realizar grandes gastos em infraestrutura. Essas medidas podem ser benéficas para a economia, mas são um risco para a saúde das finanças públicas.

Nos mercados emergentes, as perspectivas para a China parecem ter se estabilizado no que se refere ao crescimento de curto prazo. Isso não significa, contudo, que tenham desaparecido as desconfianças quanto a sua sustentabilidade no médio prazo. A China encontra-se em meio a uma transição na qual o peso do passado, sob a forma de um endividamento elevado, acumulado principalmente depois de 2008, impede que os novos setores e fontes de dinamismo avancem mais rapidamente. Apesar disso, as políticas fiscal e monetária têm estimulado a atividade econômica, mantido os investimentos em infraestrutura e sustentado o crescimento em patamar ainda elevado, ainda que obviamente inferior às taxas estratosféricas de alguns anos atrás. A confiança dos empresários da indústria em setembro aumentou novamente, voltando em alguns casos ao terreno da expansão, acima de 50 pontos, indicando assim certa estabilização do atual ritmo de crescimento.

Na América Latina, o crescimento também parece ter se estabilizado, embora em níveis relativamente baixos quando comparados ao observado no período de boom de preços de commodities. Por outro lado, as notícias positivas quanto aos efeitos menores que esperados do Brexit e da elevação dos juros nos EUA, mantiveram o ambiente favorável no que se refere à aceitação de riscos pelos investidores internacionais. Isso permitiu alguma valorização cambial e favoreceu o controle da inflação de modo que as políticas monetárias na região

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