Endividamento privado é diagnóstico da crise que exige remédio amargo

Crise de alavancagem das empresas é o diagnóstico mais assertivo da atual recessão que aflige a economia brasileira há mais de dois anos, ao contrário da proposição de que seja causada exclusivamente pela “nova matriz macroeconômica”, com uma maior intervenção do Estado, aumento do déficit público, descontrole das contas públicas, consequente quebra de confiança e alta na taxa de juros. Em outras palavras, a atual crise é bastante distinta das demais registradas na história da economia brasileira por ter sido gerada endogenamente pelo endividamento das empresas do setor privado, principalmente das não financeiras. No caso, o remédio amargo da crise que vivemos não passa apenas pela austeridade fiscal e monetária, mas depende de políticas que revertam a posição de déficit das empresas brasileiras e estimulem os investimentos privados.

Ressaltamos a necessidade de que o diagnóstico da crise econômica seja feito adequadamente para que a remediação seja a mais assertiva possível. As crises que o Brasil vivenciou até então foram, basicamente, crises externas e as políticas desenhadas até então continuam sendo replicadas. Devido ao fato dessa crise ser diferente e pelo fato de muitos formuladores de política econômica e economistas não se atentarem à natureza da crise, acaba-se por prescrever políticas inadequadas que não tratam o cerne do problema.

Segundo dados das 500 maiores empresas no Brasil entre 2006 e 2015, observa-se claramente um ciclo de alavancagem, no qual as empresas se colocaram em “posição de déficit” desde 2007, piorando em 2008, seguido por um suspiro de recuperação em 2009 e intensificando progressivamente a “posição de déficit” ano a ano após 2010. Para o período, o montante de dívidas das empresas teve um crescimento médio anual nominal em dólares de 7,25%, enquanto o endividamento geral foi acrescido em mais de 10 pontos porcentuais.

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Nossa argumentação se sustenta em uma das ideias centrais do economista americano Hyman Philip Minsky, apresentada em “Stabilizing an Unstable Economy” (2008), propondo que a estabilidade gera a instabilidade, pois o desequilíbrio é inerente ao capitalismo. Durante períodos de prosperidade e de crescimento se desenvolve uma fragilidade financeira, quando os investidores mais otimistas e confiantes da robustez econômica começam a correr maiores riscos, tendendo a incitar ciclos de alavancagem. Assim a posição de déficit trata-se de uma resposta natural à prosperidade econômica, a qual é endógena e sistêmica e acontece como parte do processo de desenvolvimento.

No período de pré-crise, entre 2002 e 2007, constata-se significativa expansão dos lucros agregados, com as empresas se sentindo mais confiantes para aumentar seus endividamentos líquidos. Contudo, entre 2007 e 2008, houve uma mudança estrutural tanto na economia doméstica quanto na economia global, dada a crise do subprime. A mudança no padrão de comércio internacional afetou os lucros agregados das empresas no Brasil, o que por sua vez comprometeu o cumprimento das obrigações financeiras assumidos antes da crise, elevando o endividamento. Analisando a situação das 500 maiores empresas brasileiras, é possível perceber esse cenário.

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Com o aumento das despesas financeiras, por conta do maior endividamento, as empresas passaram a cortar custos e postergar investimentos, o que de forma agregada criou um viés recessivo caracterizado por desemprego crescente e desaceleração da atividade econômica. Dado o diagnóstico da recessão brasileira por deterioração nos balanços das empresas, a simples redução dos custos de captação via corte na Selic e a austeridade fiscal não serão capazes de reverter esse cenário. Lembrando que a decisão de investimento do empresário leva em conta não apenas o custo do capital (taxa de juros) mas também o retorno esperado sobre o capital. Ou seja, para que o empresário volte a investir não basta simplesmente mexer na Selic, mas é preciso que haja melhora nas perspectivas futuras de retorno dos investimentos. Assim, é fundamental reavivar o lucro agregado estimulando as expectativas futuras de retorno dos investimentos.

Contudo, de forma pragmática, é pouco provável que o investimento privado seja recuperado por si só. O investimento público, por sua vez, se encontra congelado com grandes empresas estatais mergulhadas em esquemas de corrupção. E do lado externo não há perspectivas dada a desaceleração da atividade internacional puxada pela freada chinesa, pela estagnação da economia norte-americana e crise na Área do Euro. Assim, a saída da atual crise econômica passa necessariamente pelo Tesouro Nacional porque ao aumentar o déficit público contribui-se para estabilizar a renda no setor privado, a qual é fundamental não só para garantir a estabilidade econômica, mas também para garantir a estabilidade do sistema financeiro. Dessa maneira, em uma situação de crise de alavancagem é positivo que o déficit público cresça no curto prazo.

O remédio amargo da crise de endividamento que assola o Brasil passa pela necessidade de o setor público retomar seu papel de protagonista junto aos investimentos no setor privado, o que suscita lucros agregados para a economia, permitindo a recuperação dos fluxos de caixa. Com isso se tem o aumento do retorno esperado e se cria um ambiente positivo de expectativa. Por isso que, comumente, em crises de alavancagem o setor público é fundamental para assegurar e estabilizar a renda visando a retomada do investimento pelo setor privado.

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