“Espírito animal” dos empresários ainda aguarda promessas críveis

Acuados por mais de dois anos, por uma recessão nunca vista antes na história, os “animal spirits” dos empresários, que permitem incitar o investimento e o crescimento econômico, parecem despertar após um longo período de hibernação. Embora a economia brasileira ainda não tenha sofrido uma reviravolta, com retomada de novos projetos e das contratações, tanto consumidores quanto empresários de diversos segmentos parecem estar menos pessimistas em relação ao futuro. É o que mostram os últimos indicadores confiança da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O índice da indústria subiu 3,7 pontos em julho último, alcançando 87,1 pontos, o maior nível desde novembro de 2014 (87,5 pontos) e 13,6 pontos acima do mínimo histórico de agosto do ano passado. O indicador no setor de serviços, por sua vez, atingiu em julho o maior nível desde maio do ano passado, avançando 3,6 pontos na passagem de junho para julho, saindo de 72,4 pontos para 76,0 pontos no período. Do lado do consumidor, depois de amargar o pior patamar histórico em abril (64,4 pontos), o nível de confiança avançou para 71,3 pontos em junho, atingindo 76,7 pontos em julho. Apesar do aumento da confiança verificada se configurar apenas como um indicativo de melhora da economia no futuro, essa percepção é o combustível essencial para instigar a fome corporativa por novos negócios. A questão que paira é como manter acesa essa chama mágica que inflama os humores e pode ressuscitar a atividade econômica com o Brasil ainda mergulhado em um mar de incertezas quanto aos resultados práticos que colheremos no futuro.

Afora do desempenho adverso do emprego, da renda, do crédito e dos custos de produção, a recessão é, antes de tudo, uma crise de confiança de consumidores e empresários em relação ao futuro. A perda de confiança resulta em agentes econômicos mau humorados, o que no universo empresarial, inibi os “animal spirits” responsáveis por realizar os investimentos produtivos e gerar empregos. O termo “animal spirits”, cuja tradução livre para o português é “espíritos animais” foi inaugurado pelo economista inglês John Maynard Keynes, durante a Grande Depressão. Os “espíritos animais” são na verdade estados de ânimo dos investidores, o que os índices de confiança dos empresários justamente tentam mensurar. A designação remete ao motivo holístico que leva alguém imobilizar uma soma significativa de capital em empreendimentos cujo sucesso ou fracasso somente será conhecido no futuro. Em outras palavras, seria o “racional” que leva uma pessoa a construir uma fábrica e esperar anos a fio o retorno de seus esforços e investimento a aplicar o dinheiro no sistema financeiro.

De acordo com Keynes, tudo é uma questão de expectativa: o retorno esperado em se investir em uma fábrica deve ser necessariamente maior ao retorno esperado em se aplicar o capital no sistema financeiro. O problema, lembra Keynes, é que não há como saber assertivamente e previamente o montante de lucro proveniente de um investimento produtivo no futuro “pois a base de dados e informações para fazer esse tipo de cálculo não existe”. A decisão de investir, sustenta Keynes, é uma questão comportamental, psicológica e não de cálculo matemático, a qual depende basicamente da confiança do empresário. A ação de investir decorre quando o “cálculo racional é complementado e sustentado pelo ‘espírito animal’, de modo que a hipótese de fracasso é colocada de lado, bem como um homem saudável coloca de lado a certeza da morte”. O espírito animal, para Keynes, associa-se a um instinto de “otimismo espontâneo”, uma disposição natural “para a ação, em vez da letargia”.

Mas voltando para o Brasil do século XXI, como incitar o espírito animal do empresariado em um cenário de recessão econômica, tumultuada por impasses políticos, processo de impeachment e escândalos de corrupção que reduziram consideravelmente a previsibilidade de cenários futuros? Essa falta de previsibilidade gerou quedas recordes na confiança dos empresários, que, conjuntamente com a deterioração das contas públicas explicam grande parte o aniquilamento dos investimentos tanto privados quanto públicos. Já a concomitante queda na confiança dos consumidores é resultado da situação real vivida pelas famílias frente ao medo do desemprego galopante, da perda da renda corroída pela inflação, do crédito mais caro e mais exigente, os quais, em conjunto reduziram a disposição a consumir das famílias, até então, o principal motor do crescimento econômico brasileiro na última década. Em outras palavras, a recuperação da atividade econômica depende crucialmente da recuperação da confiança do empresário, o que, por sua vez, exigirá, promessas críveis de um Brasil melhor. Para manter vivos os “espíritos animais” dos empresários, não basta simplesmente incitarmos o otimismo emergente para que a economia retome automaticamente o crescimento. Se as perspectivas mais positivas não se confirmarem no mundo real, mais cedo ou mais tarde elas recuam e voltamos à estaca zero.

A iminente alta da confiança registrada nos últimos três meses foi quase que inteiramente estimulada pela melhora das expectativas e não da constatação de indicadores econômicos mais positivos, em um processo aparentemente iniciado durante o desfecho da primeira fase do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. A recente melhora das perspectivas, após a entrada do governo interino, no entanto, parece superar a velocidade de recuperação cíclica da economia no curto prazo, ainda mais considerando-se os riscos ainda existentes no ambiente político, como a segunda fase do impeachment, as eleições municipais e os entraves à votação das medidas de ajuste fiscal. Esse descolamento entre esperança e realidade é o que faz duvidar da intensidade e longevidade com que o otimismo nascente será capaz de despertar o “espírito animal” do empresário brasileiro. Confiança é o principal impulso para o fim do ciclo recessivo na economia. Todavia, a volta do crescimento sustentado, capaz de reverter a ascensão do desemprego e o declínio da renda do trabalhador, depende dos resultados práticos palpáveis das reformas fiscal, previdenciária e trabalhista.

ESPIRITO ANIMAL - TABELA

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